Apaixonados por dados #DATALOVERS

A Era Big Data trouxe junto com ela alguns problemas. O ser humano, naturalmente consumidor de informação, extrapolou sua capacidade de assimilar tanta coisa simultaneamente. Para defender-se dessa enxurrada de dados,  as pessoas criaram alguns “filtros invisíveis” para escolher o que irão consumir. Alguns dos recursos que usamos, por exemplo, são as escolhas de plataformas em que consumiremos informação, as pessoas relevantes que acompanharemos, as características visuais das mensagens,… entre tantas outras variáveis existentes nesse complexo processo do nosso cérebro, muitas vezes automaticamente programado.

É inegável que um dos principais aspectos envolvidos no nosso processo de consumo de informação é o aspecto visual. Muito mais do que um gráfico bonito, estou me referindo a contar histórias através de representações visuais. Isso não é uma novidade, a arte, a comunicação e tantos outros já se apropriam muito bem dessa técnica, mas no momento que vivemos entre montanhas de dados, é inevitável trazer esse assunto à tona, afinal, “pessoas se relacionam melhor com histórias do que com montanhas de dados”.

Dados, quando transformados em informação, são uma importante fonte de poder, mas isso costuma ficar limitado as pessoas que estão dispostas a traduzi-los. Se pensarmos na visualização de dados como uma forma de arte, onde a transformação prioriza a história que os dados estão contando, podemos tornar histórias complexas em algo acessível para mais pessoas, simplificando o consumo dessa informação.

“Transformar dados em histórias pode ser uma forma de arte.”

Um dos casos que ajuda a ilustrar essa situação é a triste história do assassinato da brasileira Marielle. Uma história com tantos fatos e versões pode nos levar para um universo paralelo de percepções. Opiniões muito diferentes, talvez todas com uma certa dose de verdade, que quando isoladas podem se tornar verdades absolutas para pessoas menos informadas. Mas como observar essa repercussão de forma “resumida”, com uma síntese das opiniões?! Nada melhor do que uma boa representação visual para realizar essa tarefa. Foi isso que o time da FGV fez, um estudo de dados de comportamento que se transformou em um importante “retrato social”, decodificando o comportamento da sociedade (aliás, temos um bootcamp cappralab.com/skinner que transmite essa metodologia para esse tipo de análises). Veja como fica mais fácil entender a percepção das pessoas através de informações qualificadas, organizadas e visuais:


MARIELLE
A Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV é um centro de pesquisa social aplicada, que tem como objetivo a compreensão das políticas públicas e de seus efeitos, qualificando o debate público na sociedade em rede. A missão da DAPP é aprimorar a transparência e o diálogo entre o Estado e a sociedade e promover o desenvolvimento nacional. Nesta obra, disponível online no site, a DAPP analisa a linha do tempo de interações das pessoas nas redes referentes a morte da vereadora Marielle Franco. A análise conta com o registro de mais de 500 mil conversas sobre o caso em 19 horas, sendo cerca de 594 tuítes por minuto. Destaca-se postagens de repercussão de comoção e choque, relação de seu trabalho enquanto defensora dos Direitos Humanos e relatora da comissão de intervenção federal da segurança pública no Rio de Janeiro. Além disso, foram analisados 1.288 páginas públicas, imprensa e perfis institucionais, identificando em uma nuvem as principais palavras utilizadas, como morte, pessoas, Brasil e bandidos. Por último, foram utilizadas ferramentas de identificação de propagação das mensagens para identificar 5% de perfis automatizados na repercussão das discussões (bots). Pesquisa realizada no período de 13 a 23 de março de 2018 sobre os assuntos referentes à morte da vereadora Marielle Franco pela equipe DAPP/FGV.

MARIELLE da FGV foi uma das obras de arte – baseada em visualização de dados – que levamos para o DATALOVERS (www.cappralab.com/datalovers), onde artistas foram convidados a expor obras baseadas em dados. Uma exposição de arte que conta histórias através de dados, uma mistura de análise de comportamento com matemática, tudo representado de forma visual. Artistas costumam criar obras incríveis transcrevendo suas percepções e sentimentos em representações visuais que expressem tudo isso, mas aqui estamos falando de transcrever comportamento baseado no coletivo, com apoio de matemática e tecnologia. Traduzir a construção de conhecimento coletivo em algo mais acessível e amigável.

Obviamente sou apaixonado por tecnologia, adoro sistemas que me permitam consumir informação rápida e confiável, mas a tecnologia carrega consigo um perigoso recurso:

“A tecnologia dispersa atenção, quando, em muitos casos, deveria ser apenas uma ferramenta para transmitir informação.” 

Por tudo isso, e com a intenção de ampliar a consciência analítica das pessoas, que criamos o DATALOVERS, usando a visualização de dados como uma forma efetiva de contar histórias relacionadas ao comportamento coletivo da sociedade. A primeira edição aconteceu em Porto Alegre, com 16 obras, produzidas por institutos de pesquisa como FVG, passando por laboratórios como MIT Media Lab e CAPPRA LAB, além de coletivos e artistas independentes de diferentes partes do mundo.

Para nós do CAPPRA LAB, foi uma grande oportunidade de disseminar a consciência analítica para a sociedade, mas ficou claro que é muito mais do que isso, tem uma relação direta com empoderar pessoas. Esse foi um projeto que nos desafiou, nos tirou de nossa zona de conforto, nos fez estudar coisas que não estão em nosso dia-a-dia, e obviamente acrescentou habilidades aos cientistas de nossos laboratórios de ciência de dados.

Vou deixar aqui algumas fotos da exposição, onde fica claro o poder transformador que tem a arte 🙂

todas as fotos https://flic.kr/s/aHsmiicrem

Ricardo Cappra
Chief-Scientist, CAPPRA LAB.

*A próxima edição do #DATALOVERS está programada para São Paulo, acompanhe por aqui as novidades: www.cappralab.com/datalovers