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Os 10 livros mais legais que eu li em 2020

Fiz uma lista dos 10 livros mais legais que li em 2020, um ano muito louco, mas que a mudança drástica nas rotinas de viagem acabaram resultando em mais tempo para leitura. Quem me conhece um pouquinho sabe que gosto de leituras mais relacionadas com tecnologia, ciência e negócios, mas fiz questão de colocar na lista algumas coisas que fugiram um pouco dessa linha, afinal, 2020 merece quebras de protocolos.

O sistema amazon, Ram Charan & Julia Yang

Ram Charan e Julia Yang decodificaram o sistema da Amazon, de uma forma divertida e leve eles detalharam os ingredientes que fazem parte da cultura organizacional e da cabeça de Jeff Bezos. Algo que aparece em praticamente todas as páginas, referenciando a fórmula de sucesso da Amazon, é o uso de dados, através de um modelo de operação de negócio totalmente data-driven.
Uma frase do livro: “o sistema de dados e métricas da Amazon libera os executivos de ter que se afundarem em operações rotineiras do dia a dia e libera mais tempo e energia para que eles se dediquem à melhoria, inovação e invenção contínuas e para viver no futuro.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Alibaba, Duncan Clark; 2) Mindset da disrupção, Charlene Li.

A Praça e a torre, Niall Ferguson.

Esse livro é sobre poder, economia, sistemas sociais e principalmente: sobre redes. Através de um diagnóstico completo do funcionamento das redes, inclusive com abordagem das teorias matemáticas envolvidas nas análises de redes, Niall Ferguson vai lá nas origens da sociedade e mostra o impacto da formação de hierarquias e clusterizações sociais que compõem atualmente os nossos modelos econômicos, sociais e de poder.
Uma frase do livro: “… a organização hierárquica talvez seja a única maneira possível de organizar uma sociedade de baixa confiança.”, citando Fukuyama.
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Linked, Albert-László Barabási; 2) The seventh sense, Joshua Cooper Ramo.

Ghost work, Mary L. Gray & Siddharth Suri.

Esse livro é chocante, pois a Mary Gray consegue demonstrar um impacto invisível que o uso inadequado da tecnologia pode gerar na sociedade, gerando “trabalho fantasma”, ou seja, pessoas executoras de processos que não são percebidas nem na sociedade e nem nos “locais” onde trabalham. A exclusão social é apenas um dos itens presentes nas análises, o futuro com muitos trabalhadores invisíveis é apresentado como algo inevitável.
Uma frase do livro “… o trabalho fantasma – a computação humana por trás dos serviços – é uma forma relativamente nova de poder, que combina a velocidade e a precisão do software com o talento humano.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) The Black box society, Frank Pasquale; 2) A grande saída, Angus Deaton.

Sociedade com custo marginal zero, Jeremy Rifkin

Eu já havia lido esse livro uns anos atrás, mas após ler o ghost work retornei nele, pois entendi um pouco melhor algumas coisas que da teoria de Rifkin que ele apresentou neste livro. Ele fala muito sobre economia do compartilhamento, conectividade da sociedade, mas quando ele aborda o paradigma econômico do custo marginal zero, reflete um pouco do que o mundo sofreu com a dependência da China no momento que precisou de insumos fundamentais para proteger a sociedade durante a pandemia. O país que manteve o menor custo de produção (e aqui também ele coloca em questão o outro lado dessa moeda) foi o que mais se beneficiou economicamente e cresceu durante a pandemia.
Uma frase do livro: “Os jovens avançam para além do mercado capitalista mesmo enquanto continuam a utilizá-lo.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) O futuro do capitalismo, Paul Collier; 2) Economia do bem comum, Jean Tirole.

Ignorância, Stuart Firestein

Esse livro é sobre ciência, incertezas, persistência e principalmente sobre a manutenção da “ignorância” como elemento chave para a evolução da sociedade. A ignorância – e não o conhecimento – é o verdadeiro motor da ciência, e consequentemente, o fator de transformação da sociedade. Você não vai encontrar nenhuma solução nesse livro, na verdade, vai encontrar somente um monte de perguntas.
Uma frase do livro: “Na verdade, uma das coisas mais previsíveis quanto a previsões é a frequência com que estão erradas.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Sobre ter certeza, Robert A. Burton; 2) A estranha ordem das coisas, António Damásio.

As regras do contágio, Adam Kucharski

Esse ano li muito sobre os vírus, em razão do nosso trabalho no instituto que resultou no livro COVID-19 Data Science Highlights, mas esse livro consegue ir além do lado científico/clínico da análise de um vírus para observar os elementos de contágio de qualquer coisa, seja uma ameaça biológica, uma peça de comunicação ou uma fake news. É muito bacana a forma que o autor explora os elementos pro trás do contágio, decodificando as variáveis e analisando os fatores chaves para a disseminação/contágio.
Uma frase do livro: “se quisermos disseminar ideias e inovações ou acabar com os vírus e a violência, precisamos identificar o que realmente impulsiona o contágio.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Armas, Germes e Aço, Jared Diamond; 2) Six degrees, Duncan Watts.

Vida 3.0, Max Tegmark

Esse é um livro sobre inteligência artificial, que explora principalmente os elementos humanos envolvidos na inevitável transformação digital que o mundo está sofrendo, e que será acelerada daqui para frente em razão do impacto da pandemia na sociedade e negócios. A proposição do autor é gerar a reflexão de diferentes variáveis envolvidas nessa evolução, e para isso coloca várias questões que até agora não foram resolvidas pela sociedade científica. Ele demonstra, com exemplos práticos e sem respostas definitivas, como a inteligência artificial crescerá de forma exponencial.
Uma frase do livro: “… nós, humanos, muitas vezes fundamentamos nossa autoestima na ideia de excepcionalismo humano: a convicção de que somos as entidades mais inteligentes do planeta e, portanto, somos únicos e superiores. A ascensão da IA nos forçará a abandonar isso e nos tornar mais humildes.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Humano + Máquina, Daugherty & Wilson; 2) Possible minds: 25 ways of looking at AI, John Brockman

Inventive minds, Marvin Minsky 

Esse é um livro que reúne seis ensaios de Minsky sobre crianças, aprendizagem e o potencial dos computadores na escola. Minsky estudava a mente com o objetivo de compreender novas maneiras de construir inteligência artificial, mas acabou descobrindo na mente humana muito mais que isso. Ele apresenta as deficiências da educação convencional, sugerindo inclusive meios e alternativas para o aprendizado ser aperfeiçoado. O pensamento computacional é o tema central desse livro.
Uma frase do livro “… no ensino tradicional, ao invés de promovermos a inventividade, no concentramos na prevenção de erros.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Somos todos criativos, Ken Robinson; 2) Aprendendo a aprender, Barbara Oakley.

Os segredos dos grandes artistas, Mason Currey.

Foi muito complicado estabelecer rotinas nesse ano maluco de 2020, então li vários livros sobre esse tema, um dos mais divertidos e que mais me marcou foi esse do Mason Currey. Ele investigou os registros histórico de rotinas diárias de artistas renomados, com cerca de uma página para cada artista, ele retrata a vida e trabalho dessas pessoas. Mais do que um tutorial de como organizar seu dia, ele mostra que o processo criativo desses artistas não foi baseado em um processo criterioso ou estruturado, eles apenas sentavam e faziam o trabalho deles.
Uma frase do livro “William James dizia que as rotinas são formas de libertar nossa mente para progredir rumo as áreas de ação realmente interessantes. Ironicamente, James era um procrastinador crônico e nunca conseguiu manter uma programação regular.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Sobre a escrita, Stephen King; 2) Do que eu falo quando falo de corrida, Haruki Murakami.

Os inovadores, Walter Isaacson.

Walter Isaacson é famoso por escrever biografias, escreveu sobre Steve Jobs, Albert Einstein, Leonardo da Vinci, mas nessa aqui ele se concentrou nas iniciativas que criaram a revolução digital que vivenciamos atualmente, iniciando em 1843 com Ada Lovelace e indo até os dias atuais com histórias inéditas sobre Google, IBM, Apple, Microsoft. Para quem quer entender para onde a tecnologia está indo, é fundamental observar os principais sinais da história que nos trouxeram até aqui. O mais bacana do ponto de vista do autor é que ele observa quem está gerando a inovação, e não a inovação em si.
Uma frase do livro “Essa inovação virá de pessoas capazes de associar beleza com engenharia, humanidades com tecnologia, poesia com processadores. Em outras palavras, virá dos herdeiros espirituais de Ada Lovelace, criadores capazes de florescer onde a arte se cruza com a ciência, dotados de uma rebelde faculdade de se maravilhar que lhes permite ver a beleza de ambas.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Einstein, Walter Issacson; 2) Jony Ive, Leander Kahney.

Bônus (ainda estou lendo mas resolvi colocar na lista também).

Uma terra prometida, Barack Obama

Gosto muito de biografias, no caso dessa do Obama ele detalha o cotidiano, incertezas e alegrias de um presidente americano. Gosto da forma que ele escreve, é leve, em alguns momentos é poético a forma como ele conta a história. É um livro bem longo, que conta detalhes (no ponto de vista do autor) do processo de tomada de decisão em sistemas complexos, relações sociais envolvidas na vida caótica de um presidente e até das coisas simples da vida que são percebidas de forma diferente quando se está no poder.
Uma frase do livro: “Tentei explicar meu conflito interior: entre trabalhar pela mudança dentro do sistema e ao mesmo tempo ser contra ele; querer liderar, mas também capacitar as pessoas para que elas mesmas promovessem as mudanças de que precisavam; querer fazer política, mas não ser político.”
Se você gostou desse, talvez goste de 1) Tim Cook, Leander Kahney; 2) Endurance, Scott Kelly.

Ricardo Cappra é pesquisador de cultura analítica e cientista chefe do Cappra Institute, onde lidera um time global que pesquisa o impacto dos dados na sociedade e nos negócios, para criar metodologias que aceleram o desenvolvimento analítico de organizações e pessoas. Esses métodos são usados por Governo dos EUA, Gol Linhas Aéreas, Banco Santander, UOL, Whirlpool, Banco Mundial, Rede Globo, Banco Itaú, Unilever, Ambev,... ricardocappra.com