Todos os anos coloco aqui uma listinha dos livros mais marcantes que li, nesse ano minha biblioteca cresceu bastante, estudei muito sobre tecnologia da informação, inteligência artificial, ética, tomada de decisão e filosofia.

Aqui nessa seleção vou trazer aqueles que se destacaram, separei um trecho importante de cada um deles, adicionando o link na Amazon, título e autor, assim, caso você se interesse por algum, fica fácil ir atrás da obra.

Essa lista não está em ordem de preferência, pois eles possuem características muito diferentes para serem comparados. Há, também trouxe para a lista o Rastreável, o livro que lancei nesse ano 🙂

Espero que goste da lista!

Ruído: Uma falha no julgamento humano

Daniel Kahneman 

“Imagine como seriam as organizações se fossem reformadas para reduzir o ruído. Hospitais, comitês de contratação, analistas econômicos, agências de governo, companhias de seguro, autoridades de saúde pública, sistemas de justiça criminal, escritórios de advocacia e universidades ficariam mais alertas ao problema e tentariam reduzi-lo. … Os lideres das organizações usariam algoritmos para substituir o julgamento humano ou para suplementá-lo em muito mais áreas do que hoje. As pessoas decomporiam os julgamentos complexos em avaliações mediadoras mais simples. Saberiam da higiene da decisão e seguiriam suas prescrições. Julgamentos independentes seriam feitos e agregados. As reuniões de negócios teriam aspecto bem diferente; as discussões seriam mais estruturadas. Uma visão de fora seria mais sistematicamente integrada ao processo decisório. As discordâncias evidentes seriam mais frequentes e resolvidas de forma mais instrutiva. … O resultado seria um mundo menos ruidoso. Isso economizaria bastante dinheiro, melhoraria a segurança e a saúde públicas, aumentaria a justiça e Preveniria muitos erros evitáveis.”

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Entre a Razão e a experiência: Ensaios sobre tecnologia e modernidade 

Andrew Feenberg

“Toda tecnologia aponta para um operador, por um lado, e para um objeto, por outro. Quando tanto o operador como o objeto são seres humanos, a ação técnica é um exercício de poder. Onde, para além disso, a sociedade é organizada em torno da tecnologia, o poder tecnológico é a principal forma de poder na sociedade. Ele é produzido através de projetos que reduzem o leque de interesses e preocupações que podem ser representados pelo funcionamento normal da tecnologia e das instituições dela dependentes. Esse estreitamento distorce a estrutura da experiência, causando sofrimento humano e danos ao ambiente natural.”

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A Decodificadora: Jennifer Doudna, Edição de genes e o futuro da espécie humana.

Walter Isaacson

“Há outro problema com o argumento de que deveríamos mostrar absoluta deferência pelo trabalho da natureza. Ao longo da história, humanos (e todas as outras espécies) vêm batalhando contra as oferendas envenenadas da natureza, em vez de aceitá-las. A Mãe Natureza produziu sofrimento em grande escala e distribuiu desigualdade. Por isso, desenvolvemos maneiras de combater pragas, curar doenças, reverter a surdez e a cegueira, cultivar plantas, animais e crianças melhores. Darwin escreveu sobre “as obras desajeitadas, perdulárias, baixas e horrivelmente cruéis da natureza. A evolução, ele descobriu, não apresenta qualquer marca de um design inteligente ou de um deus benevolente. Ele fez uma lista detalhada das coisas que evoluíram de maneira falha, incluídos o caminho do trato urinário em mamíferos machos, a drenagem ruim nos seios da face em primatas e a incapacidade dos humanos em sintetizar a vitamina C. Essas falhas de projeto não são meras exceções. São consequências naturais da maneira como a evolução progride. Ela tropeça e depois combina novas características, assim como as piores versões do Microsoft Office, em vez de seguir com um plano mestre e um produto final em mente. O principal guia da evolução é a aptidão reprodutiva quais características podem fazer com que um organismo se reproduza mais -,o que significa que ela permite, e talvez até encoraje, todo tipo de pragas, inclusive coronavírus e cânceres, que afligem um organismo uma vez que seu uso reprodutivo tenha acabado. Isso não significa que, por respeito à natureza, deveríamos desistir de procurar maneiras de prevenir os coronavírus e cânceres.”

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The ascent of information

Caleb Scharf

“Vou explorar como as forças da evolução e os mecanismos da seleção natural ajudam a conectar todos esses pontos de passagem. Vamos investigar a natureza fundamental da própria informação, como algo de substância ao invés de abstração, uma parte das leis da natureza. … O fenômeno central desta jornada precisa de um nome. Eu vim para chame-o de “dataome”, semelhante ao conceito de um genoma … O dataome são todos os dados não genéticos que carregamos externa e internamente … dataome compreende dados com diferentes fundamentos características e diferentes graus de informação. Por exemplo, podem ser dados que, embora não sejam geneticamente codificados, são mantidos em estruturas. A maioria de suas memórias pessoais estaria neste categoria, … compartilhado e mantido, independentemente de quantos gerações vêm e vão … um livro é uma manifestação de um ideia, um design feito de dados…”

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Tecnodiversidade

Yuk Hui

“Falar sobre os limites da inteligência artificial não significa mostrar quais são os pontos fracos da inteligência da máquina, o que ela não poderia, não pode e nunca poderá fazer: (As máquinas são parte do processo evolutivo da espécie humana são um dos aspectos da evolução que os seres humanos foram capazes de controlar, mas do qual estão gradualmente perdendo o controle. Mostrar os limites da inteligência artificial não fará com que as máquinas possam ser controladas de novo, mas é algo que libertará a inteligência das máquinas dos vieses de certas ideias de inteligência – e, desse modo, possibilitará a concepção de novas ecologias políticas e de economias políticas da inteligência das máquinas. Para que possamos fazê-lo, teremos de entender a história da inteligência das máquinas e aquilo que motiva e impede sua evolução. Um erro comum está em não entender que a realidade técnica – termo usado por Gilbert Simondon também inscreve em si a realidade humana, e isso não só porque a tecnologia é a concretização de esquemas mentais influenciados por estruturas sociais e políticas contidas na sociedade humana, mas também porque ambas são transformadas pela realidade técnica. A sociedade humana é transformada por invenções técnicas, e essa transformação sempre vai além.”

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O Tao de Warren Buffett

Mary Buffett & David Clark

“Nada melhor do que escrever para forçá-lo a pensar e organizar seus pensamentos. Se você não consegue escrever sobre algo, não pensou realmente a respeito disso. Assim, todo ano Warren se senta e escreve uma longa carta aos seus acionistas ex-plicando os eventos do ano anterior. Esse exercício o tem ajudado imensamente a refinar seus pensamentos sobre como ganhar bilhões. Escrever sobre algo faz você pensar naquilo; e, se pensar sobre onde investir seu dinheiro é uma coisa boa, então escrever a respeito disso é ainda melhor. Warren geralmente começa a escrever seu relatório anual logo que o ano começa, em sua casa de inverno à beira-mar, em Laguna Beach, Califórnia (pertinho de onde morou Benjamin Graham). Ele escreve tudo à mão, usando papel e caneta, e depois remete à amiga Carol Loomis, que foi editora até 2014 da revista Fortune. Mesmo um gênio precisa da ajuda de um editor.”

Atlas of AI

Kate Crawford 

“Uma inteligência artificial não é um objetivo universal, ou técnica computacional neutra que torna determinações sem direção humana. Seus sistemas estão incorporados em aspectos sociais, políticos, culturais e ecológicos, mundos econômicos, moldados por humanos, instituições e imperativas que determinam o que eles fazem e como o fazem. Eles são projetado para discriminar, ampliar hierarquias e codificar classificações estreitas. Quando aplicado em contextos sociais como policiamento, sistema judiciário, saúde e educação, eles pode reproduzir, otimizar e amplificar as estruturas igualdades. Isso não é acidente: os sistemas de IA são construídos para ver e intervir no mundo de maneiras que beneficiem principalmente os estados, instituições e empresas a que servem. Nesse sentido, sistemas de AI são expressões de poder que emergem de forças econômicas e políticas, criadas para aumentar os lucros e centralizar o controle para aqueles que os exercem.”

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Introdução ao pensamento complexo

Edgar Morin 

“Conceito de Complexidade: entre um numero muito grande de unidades. De fato, todo sistema auto-organizador(vIvo), mesmo o mais simples, combina um número muito grande de unidades da ordem de bilhões, seja de moléculas numa célula, seja de células no organismo (mais de 10 bilhões de células para o cérebro humano, mais de 30 bilhões para o organismo). Mas a complexidade não compreende apenas quantidades de unidade e interações que desafiam nossas possibilidades de cálculo: ela compreende também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. A complexidade num certo sentido sempre tem relação com o acaso. Assim, a complexidade coincide com uma parte de incerteza, seja proveniente dos limites de nosso entendimento, seja inscrita nos fenômenos … A complexidade está, pois, ligada a certa mistura de ordem e de desordem, mistura íntima, ao contrário da ordem/desordem estatística, onde a ordem (pobre e estático) reinam no nível das grandes populações e a desordem (pobre, porque pura indeterminação) reina no nível das unidades elementares. Quando a cibernética reconheceu a complexidade, foi para contorná-la, pô-la entre parêntese, mas sem nega-la: e o principio da caixa preta (black-box); considera-se as entradas no sistema (impus) e as saídas (outputs), o que permite estudar os resultados do funcionamento de um sistema, a alimentação de que ele necessita, de relacionar inputs e outputs, sem entrar entretanto no mistério da caixa-preta … Viver é lidar com a desordem. …

Uma empresa se auto-eco-organiza com respeito a seu mercado: que é um fenômeno ao mesmo tempo ordenado, organizado e aleatório. Aleatório porque não existe uma certeza absoluta sobre as chances e as possibilidades de se vender os produtos e os serviços, mesmo que haja possibilidades, probabilidades, plausibilidades. O mercado é uma mistura de ordem e de desordem. Infelizmente – ou felizmente – o universo inteiro é um coquetel de ordem, desordem e organização. Estamos num universo do qual não se pode eliminar o acaso, o incerto, a desordem. Nós devemos viver e lidar com a desordem. A ordem? É tudo o que é repetição, constância, invariância, tudo o que pode ser posto sob a égide de uma relação altamente provável, enquadrado sob a dependência de uma lei. A desordem? É tudo o que é irregularidade, desvios com relação a uma estrutura dada, acaso, imprevisibilidade. Num universo de pura ordem, não haveria inovação, criação, evolução. Não haveria existência viva nem humana. Do mesmo modo nenhuma existência seria possível na pura desordem, porque não haveria nenhum elemento de estabilidade para se instituir uma organização. As organizações têm necessidade de ordem e necessidade de desordem. Num universo onde os sistemas sofrem incremento da desordem e tendem a se desintegrar, sua organização permite refrear, captar e utilizar a desordem. Toda organização, como todo fenômeno físico, organizacional e, claro, vivo, tende a se degradar e a degenerar. O fenômeno da desintegração e da decadência é um fenômeno normal. Ou seja, o normal não é que as coisas permaneçam tais como são, pelo contrário, isso seria inquietante. Não há nenhuma receita de equilíbrio. A única maneira de lutar contra a degenerescência está na regeneração per- imanente, melhor dizendo, na atitude do conjunto da organização a se regenerar e a se reorganizar fazendo frente a todos os processos de desintegração.”

Rastreável:  Redes, Vírus, Dados e Tecnologias Para Proteger e Vigiar a Sociedade

Ricardo Cappra

“A próxima geração Não há dúvida alguma de que a próxima geração precisará ser mais analítica. Explico: o fato de a tecnologia da informação ter se espalhado por todos os lugares e hoje estar presente nas mãos da maior parte das pessoas, por meio de smartphones, não significa necessariamente que habilidades analíticas tenham acompanhado a expansão do acesso à informação. Existe mais tecnologia acessível e informação à disposição, mas o uso que se está fazendo dessas coisas ainda é inadequado. Precisamos ensinar às pessoas a habilidade de analisar e tomar decisões com base nos dados e informações disponíveis. O pensamento analítico é a fusão das escolas do pensamento crítico e do pensamento computacional.”

Desejo de status

Alain de Botton 

“A forma mais rápida de deixar de apreciar uma coisa pode ser comprá-la – assim como a forma mais rápida de deixar de apreciar uma pessoa pode ser casar-se com ela. Somos tentados a acreditar que determinadas realizações e posses nos garantirão uma satisfação duradoura. Somos levados a nos imaginar escalando as encostas íngremes do penhasco da felicidade para chegar ao platô alto e amplo onde continuaríamos nossa vida; não somos lembrados de que logo depois de chegar ao topo, seremos chamados novamente a descer para as planícies frescas da ansiedade e do desejo. Parece que a vida é um processo de substituir uma angústia por outra e trocar um desejo por outro – o que não equivale a dizer que nunca devemos lutar para superar nossas angústias ou satisfazer nossos desejos, mas talvez que em nossas lutas devemos estar conscientes da forma como nossas metas nos prometem níveis de tranquilidade e resolução que elas, por definição, não podem fornecer. Se não podemos deixar de ter inveja, é especialmente pungente que devamos passar tanto tempo invejando as coisas erradas.”

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Information: A very short introduction

Luciano Floridi

“O ciclo de vida da informação normalmente inclui as seguintes fases: ocorrência (descoberta, design, autoria, etc.), transmissão (rede, distribuição, acesso, recuperação,transmissão, etc.), processamento e gerenciamento (coleta, validar, modificar, organizar, indexar, classificar, filtrar, atualização, classificação, armazenamento, etc.) e uso (monitoramento, modelagem, análise, explicação, planejamento, previsão, tomada de decisão, instrução, educação, aprendizagem, etc.)…

Ética da informação como recurso:  Considere primeiro o papel crucial desempenhado pela informação como um recurso para as avaliações e ações morais … Sócrates já argumentou que um agente moral está naturalmente interessado em ganhar como muita informações valiosas, conforme as circunstâncias exigem, e que um agente bem informado tem maior probabilidade de fazer a coisa certa. O ‘intelectualismo ético’ resultante analisa o mal e o comportamento moralmente errado como resultado de informações deficientes.” 

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Diário do Subsolo

Dostoiévstki

“Nas memórias de qualquer pessoa há coisas que esta não revela a todo o mundo, mas tão somente aos seus amigos. Há também outras que ela não contará nem aos amigos, mas tão somente a si mesma e de modo secreto. Por fim, há tais coisas que essa pessoa teme revelar até a si própria, e cada pessoa decente tem acumulado bastante coisas assim. E mesmo desse jeito: quanto mais decente for a pessoa, tanto mais coisas ela esconde. Eu, pelo menos, só me atrevi há pouco tempo a relembrar algumas das minhas aventuras de outrora, as quais sempre contornava com certa inquietude.”

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Um ótimo 2022 para você!

@cappra

Ricardo Cappra é pesquisador de cultura analítica e cientista chefe do Cappra Institute, onde lidera um time global que pesquisa o impacto dos dados na sociedade e nos negócios, para criar metodologias que aceleram o desenvolvimento analítico de organizações e pessoas. Esses métodos são usados por Governo dos EUA, Gol Linhas Aéreas, Banco Santander, UOL, Whirlpool, Banco Mundial, Rede Globo, Banco Itaú, Unilever, Ambev,... ricardocappra.com